Encantei-me assim que te vi. Seu jeito desajeitado me chamou a atenção. Você esbarrou sua bolsa em um rapaz que estava sentado no ônibus uma vez. Então, pediu desculpas. Ele te sorriu e afastou o braço para que você, em pé, pudesse se acomodar. Você esbarrou sua bolsa no rapaz novamente. Dessa vez quem riu fui eu. De novo, pediu desculpas a ele, toda desconcertada, como se você não coubesse em si mesma.
Até que ao se sentar a minha frente, percebi um saquinho branco de papel em uma de suas mãos cheias. O blazer azul-escuro, os sapatos pretos fechados, uma presilha cor de cobre com um dos lados meio descascado segurando a franja, a xuxa azul prendendo o cabelo curto e os fios que teimavam em sair de trás da sua orelha. Uma mão brigava com eles, ensinando-os a te obedecer, e a outra segurava o saquinho branco cheio de algo que eu não pude notar ser doce ou salgado. Mas deduzi ser gostoso. Os músculos do seu rosto se mexiam em harmonia enquanto você mastigava displicentemente.
Em um momento você olhou pra cima, pro nada. Mas ele te pareceu tão digno de atenção que o desejei para mim. Virou-se para o lado e vi que a imagem bela que eu tinha de suas costas e dos perfis das suas orelhas eram falsas. Mas essa sensação nem chegou a durar: você logo voltou-se para frente ainda devorando o saquinho branco de papel e eu logo me voltei ao seu jeito desengonçado e trapalhão. Sorri internamente.
Em algum instante, você pegou o saquinho branco de papel, apertou a bolsa debaixo do braço e se levantou desconcertada. Era o nosso adeus. Tão mudo quanto fora o nosso diálogo.
Engraçado como as pessoas aparecem e desaparecem da nossa vida, não acha?